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Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade: Capítulo 17

Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade
Capítulo 17
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Notes

table of contents
  1. Título
  2. Dedicatória
  3. Sumário
  4. Lista De Figuras
  5. Notas Sobre Os Autores
  6. Agradecimentos
  7. Introdução
  8. Parte 1
  9. Capítulo 1
  10. Capítulo 2
  11. Capítulo 3
  12. Capítulo 4
  13. Capítulo 5
  14. Capítulo 6
  15. Parte 2
  16. Capítulo 7
  17. Capítulo 8
  18. Capítulo 9
  19. Capítulo 10
  20. Capítulo 11
  21. Capítulo 12
  22. Parte 3
  23. Capítulo 13
  24. Capítulo 14
  25. Capítulo 15
  26. Capítulo 16
  27. Capítulo 17
  28. Capitulo 18
  29. Conclusão
  30. References

Capítulo 17

Inteligência Artificial, apropriação, ancestralidade e Bem Viver

Sebastián Gerlic e Alex Potiguara

Este capítulo reflete sobre alguns dos projetos que surgiram a partir do projeto AIAI ou que, pelo menos, deram continuidade a ele, destacando a maneira como seus líderes articularam formas alternativas de abordar o envolvimento indígena com a IA generativa e, de maneira mais ampla, com as ferramentas digitais.

Apropriação Indígena da Inteligência Artificial (Sebastián Gerlic)

O AIAI – Artificial Intelligence, Art and Indigeneity [Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade] foi um belo projeto de pesquisa exploratória que refletiu sobre a geração de imagens por IA a partir de prompts de texto. Como, nesta fase da minha vida, estou mais entusiasmado com a criação do que com a pesquisa, e como adoro criar e incentivar outras pessoas a criar e cocriar, assim que o AIAI terminou, idealizei o projeto AIIA – Apropriação Indígena da Inteligência Artificial. Sonhei com a oportunidade de reunir vários dos meus amigos indígenas e, juntos, aprendermos a usar a IA com um olhar crítico, abraçando a IA generativa como uma ferramenta, em vez de sermos meros consumidores por ela utilizados.[1] Com o apoio financeiro do Programa Ibercultura Viva e o apoio contínuo da Universidade de Leeds e de Thea Pitman, o projeto AIIA foi uma oportunidade de dar continuidade às nossas explorações com o Midjourney e outras ferramentas de geração de imagens por IA, além de assumirmos riscos artísticos.

Após três meses de reuniões virtuais semanais, de intercâmbios entre doze pessoas – dez delas indígenas (nove artistas visuais e uma escritora) e dois facilitadores não indígenas –, unindo suas vozes de quatro países diferentes (Argentina, Brasil, Bolívia e Chile), decidimos que algumas das imagens que havíamos criado deveriam ser compiladas de alguma forma. Como nossa rede De Abya Yala con Amor já havia publicado dois e-books, decidimos criar um terceiro: Imagine: La Pequeña Francisca en Abya Yala (Red Abya Yala con Amor 2023).

A grande maioria dos livros ilustrados começa com a redação do texto, seguida pela criação das ilustrações. No caso de Imagine, as imagens vieram primeiro, e então Mariela Tulián, em cocriação com todos os demais, montou uma história única em que, a cada capítulo, a protagonista viaja para a comunidade indígena de cada um dos diferentes ilustradores. Imagine é o resultado de uma apropriação inicial da IA generativa; um processo registrado em um e-book disponível gratuitamente ao público desde o final de 2023. O objetivo é servir como uma forma de inspirar o mundo globalizado com visões indígenas.

Inteligência Ancestral (Sebastián Gerlic)

Em 2023, ouvíamos muito sobre Inteligência Artificial tanto de comentaristas ‘apocalípticos quanto integrados’, para usar a definição clássica de Umberto Eco (1994 [1964]). Durante o confinamento devido ao coronavírus, nossas vidas pareciam ter se tornado um longo loop de streaming – nos arrastrávamos de uma transmissão ao vivo para outra, mais mortos do que vivos, consumindo tantas telas com suas distopias sob demanda e em promoção. Eu não me contentava com esses ‘produtos enlatados’ e queria amplificar outras vozes e compartilhar outras perspectivas, como as que Ailton Krenak retrata no livro Futuro Ancestral (2019). Assim, recorri às minhas ferramentas de comunicação e utilizei meios artísticos para contribuir com o projeto de ‘indigenizar’ a humanidade. Atualmente, estou finalizando um documentário chamado Inteligência Ancestral (Gerlic 2025a). Para produzi-lo, realizei sete entrevistas, cinco das quais com indígenas que haviam participado dos projetos AIAI e/ou AIIA. Com recursos da Lei Paulo Gustavo do Estado da Bahia, destinados a apoiar iniciativas culturais após a pandemia da COVID-19, lançamos o vídeo no final de agosto de 2025. Ao longo do processo, também editei sete minidocumentários sobre cada um dos entrevistados (Gerlic 2025b).

Na minha opinião, a humanidade está passando pela terceira ‘Grande Virada’, nos termos de Joanna Macy e outros (Korten 2006; Macy 2009), ou, como muitas profecias indígenas já haviam previsto, estamos vivendo uma transformação enorme, profunda e radical. À medida que o capitalismo morre e a ‘podridão’ ocultada pelo sistema é revelada, estamos construindo uma nova Terra. Essa nova Terra precisará reviver muitos dos antigos modos de ser que foram aniquilados, e é por meio da sabedoria viva dos povos que conservam as tradições mais antigas – por exemplo, os povos indígenas de Abya Yala – que podemos nos reconectar como filhos da Mãe Terra, abandonando o papel suicida de exploradores. Se nos reconectarmos com o coração pulsante da Terra, poderemos nos reconectar uns com os outros e, juntos, formar a ‘Teia da Vida’. Nesse sentido, vale a pena revisitar a forte relação entre o Pachamamismo[2] e a Teoria de Gaia, de James Lovelock (2000 [1979]). E também se poderia levar isso adiante, seguindo Carl Sagan e a sabedoria das cosmologias ancestrais que defendem que ‘somos feitos de matéria estelar’ (Sagan 2000 [1973], 190). Acredito que todos nós estamos vivenciando juntos uma grande transformação e que a ‘inteligência ancestral’ – uma sabedoria coletiva que se desenvolveu ao longo de gerações, de remix em remix, por milhares de anos, e que está em nosso DNA, na memória social, na natureza e nas estrelas – é fundamental para realizar essa ‘Grande Virada’. Essencialmente, trata-se de compreender os sinais da Teia da Vida que unem tudo e a todos nós, um tema que exploro em profundidade no documentário. Também acredito que, ao nos apropriarmos da Inteligência Artificial, podemos reunir muitas formas diferentes de inteligência e promover a transição, para a sociedade como um todo, em direção ao Suma Qamana ou Sumak Kawsay, um conceito indígena (Aimará/Kichwa) frequentemente traduzido como ‘buen vivir/bem viver’ ou ‘vivir bien/viver bem’ em espanhol e português, respectivamente; um conceito holístico que vai além do ‘bem-estar’ individual para abranger o viver bem em comunidade e em harmonia com o ambiente natural. E, para alcançar isso, aposto que a inteligência ancestral que habita em todos nós desempenhará um papel de liderança.[3]

Bem Viver Digital (Alex Potiguara)

Assim como Sebastián, também me interesso pelo conceito do Bem Viver. Embora, em sua versão atual, alguns argumentem que suas raízes indígenas originais tenham sido usurpadas, uma vez que o conceito foi reformulado como uma ideia política dominante (Altmann 2017), ele ainda é uma lente útil para examinar até que ponto coisas como as novas tecnologias são adequadas aos povos indígenas, às suas necessidades e visões de mundo e, de fato, à prosperidade planetária mais ampla. Inicialmente, com recursos da Digital Good Network, financiada pelo Conselho de Pesquisa Econômica e Social (ESRC) do Reino Unido, Thea liderou, no início de 2024, um projeto chamado INDIGENIA: Generative AI for Indigenous

Futures and ‘Digital Good Living’ [INDIGENIA: IA Generativa para Futuros Indígenas e o ‘Bem Viver Digital’], que tinha como objetivo explorar a inclusão digital e a apropriação de recursos digitais pelos povos indígenas de Abya Yala, com foco no que o ‘digital good’ [o digital para o bem comum] poderia significar a partir de uma perspectiva indígena. Embora o projeto tivesse inicialmente a intenção de se concentrar no impacto das ferramentas de IA generativa, por razões pragmáticas relacionadas à disponibilidade de equipamentos e à largura de banda no local de campo (as instalações da Associação Indigenista de Maringá, no estado do Paraná, Brasil), o projeto concentrou-se mais nos aspectos filosóficos da questão e resultou na elaboração de um ‘Manifesto pelo Bem Viver Digital’, que teve como objetivo imaginar como seria uma boa sociedade digital com base nas cosmovisões de diversos povos indígenas latino-americanos, conforme articulado pelos participantes do workshop (Potiguara et al. 2024).

Fui membro da equipe que trabalhou no projeto INDIGENIA e sou coautor do manifesto. Também fui convidado a participar do projeto AIAI para o workshop em Leeds, em março de 2024, onde foi projetado o protótipo de geração de imagens. Como pesquisador indígena em início de carreira com especialização específica na apropriação indígena de tecnologias digitais (cf. Mesquita 2022), em 2025 recebi uma bolsa de pesquisador visitante da Digital Good Network para trabalhar com a professora Helen Kennedy na Universidade de Sheffield, com o objetivo de desenvolver o manifesto e tentar transformá-lo em um conjunto concreto de ações.

O projeto foi denominado Indigenous People and Digital Good Living [Povos Indígenas e o Bem Viver Digital], e empregou a metodologia Dragon Dreaming, inspirada nas práticas de tomada de decisão dos aborígenes australianos (descritas no Capítulo 15), para conduzir uma série de seis ‘fogueiras digitais’ (reuniões on-line) nas quais os participantes discutiram o Bem Viver, sua relação com tudo o que é digital e avaliaram o manifesto de 2024, seguido por um workshop presencial de cinco dias na Aldeia Tabaçu do povo Tupi-Guarani, no estado de São Paulo. Esse workshop integrou rituais ancestrais e práticas espirituais, atualizou o manifesto e produziu um plano de ação com 28 iniciativas propostas, cinco das quais foram então priorizadas para implementação imediata.

A principal conquista do projeto foi a criação de uma rede liderada por indígenas que defende o Bem Viver tanto no mundo físico quanto no digital, com foco na promoção da autonomia indígena, em vez de pressionar atores externos a agir. No que diz respeito à esfera digital em particular, esta pesquisa ressalta a urgência de defender os direitos digitais indígenas e demonstra como as comunidades indígenas podem adaptar de forma criativa as tecnologias digitais para preservar a integridade cultural e a autonomia. Nesse sentido, o conceito de ‘Bem Viver Digital’ possui uma dimensão de(s)colonial, utilizando ferramentas de um sistema colonizador e reaproveitando-as como instrumentos de resistência. De modo geral, embora muitos dos aspectos do ‘Bem Viver Digital’ descritos no manifesto (como influenciar o design de hardware e software convencionais) permaneçam fora de alcance, constatamos que sua elaboração e socialização nos círculos indígenas desempenharam um papel importante, servindo como uma bússola para nos guiar rumo a ações futuras e como um meio de sonhar com o futuro que desejamos. O papel do projeto da AIAI e seu uso de arte gerada por IA para estimular essas reflexões e sonhos sobre possibilidades futuras de promover mudanças sociais foi um primeiro passo crucial e inovador.

  1. Nota dos editores: Com base em sua experiência com o projeto AIAI, Alex Potiguara optou por denominar essa abordagem de ‘(co-)criação artificial indígena’ (Potiguara 2024). Tal definição também se alinha à definição de ‘estética estendida’ de Lev Manovich e Emanuele Arielli (2024), conforme discutido no Capítulo 1. ↑

  2. Nota dos editores: Na cosmologia andina, Pachamama significa ‘mãe espaço-tempo’ ou ‘mãe cosmos’, embora seja mais frequentemente traduzida para o português como ‘Mãe Terra’ (Vallejo e Morena Soto 2018). O pachamamismo é o ethos do respeito pelo planeta. ↑

  3. Nota dos editores: O uso do termo ‘Inteligência Ancestral’ está se tornando cada vez mais comum em Abya Yala/América Latina como uma resposta de(s)colonial indígena e, de forma mais ampla, latino-americana, ao surgimento da Inteligência Artificial. Por exemplo, em 2023, foi o título de uma exposição de obras do artista argentino Marcelo Toledo na Embaixada da Argentina em Nova York (Efe 2023), e também é o tema de um livro publicado recentemente pela jornalista brasileira Petria Chaves: Como sei o que sei: o desenvolvimento da intuição como trilha para nossa inteligência ancestral (IA) (2025). Conforme observado no Capítulo 2, o termo também foi utilizado recentemente pelo pesquisador brasileiro de conceituações alternativas da IA, Gustavo Nogueira de Menezes (2025). ↑

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