Capítulo 7
Autenticidade criativa e sensibilidade visual artificial
Azul – Nicolás Jiménez Reyes
Inche pignen[1] Nicolás Jiménez Reyes, conhecido como Azul, descendente do povo Mapuche por parte de mãe e avó materna, e membro da Associação Indígena Calaucán de Llolleo, em San Antonio, Chile. Sou formado em Artes Visuais pela Universidade de Playa Ancha, em Valparaíso, e fui homenageado pela Corporação Nacional Indígena (CONADI) em 2020 por minha trajetória artística. Atualmente, atuo como artista visual e professor de artes.
Como professor e artista visual, há sempre a necessidade de explorar e descobrir novas propostas artísticas que estão surgindo atualmente, e acho muito interessante observar novas formas de expressão. Há algum tempo, vinha ouvindo que a IA estava conseguindo, de alguma forma, assimilar obras artísticas digitais, o que me causava certa inquietação e curiosidade em explorar essas novas dimensões de expressão. E o Universo se manifestou de alguma forma, levando-me a investigar esses novos caminhos digitais, repletos de sensações e emoções. Graças ao convite de Sebastián Gerlic, presidente da Thydêwá, e de um grupo de acadêmicos liderado pela professora Thea Pitman, aprofundei-me ainda mais no que está ocorrendo com a Inteligência Artificial em um nível mais profundo e profissional, repleto de reflexões coletivas e individuais.
Ao explorar pela primeira vez esses novos programas relacionados à IA generativa durante a primeira fase deste projeto, senti que tinha certas noções básicas sobre o tema e o que se podia alcançar com essas tecnologias. Mas foi bastante surpreendente ver os resultados que podiam ser obtidos a partir de um texto e como este podia se transformar em uma imagem visual.
Lembro-me de que realizamos diversos exercícios e conversamos sobre o que queríamos criar por meio de palavras, frases e textos, com o objetivo de chegar a um resultado mais completo, tanto no conceito quanto no uso técnico do programa. No momento de expressar minhas ideias, e s sentimentos e minha visão por meio de palavras precisas, surgiu uma imagem que me comoveu e, de certa forma, me levou a questionar minha autenticidade criativa (ver fig. 7.1, especialmente a imagem abaixo). Ela se parecia muito com meu estilo de pintura (ver fig. 7.2), mas senti que havia sido levada a outro nível. É claro que achei a imagem muito bonita e senti uma certa admiração por esses novos avanços tecnológicos e pelas pessoas que estão por trás de tudo isso. Senti que eles haviam alcançado uma espécie de ‘sensibilidade visual artificial’ por meio de uma nova imagem, e isso me levou a refletir sobre quem sou como artista, no âmbito criativo. Sempre achei que isso fosse algo muito pessoal, difícil de reproduzir por meio da tecnologia, mas eles já estavam um passo à frente do que eu imaginava.
Também fiquei muito surpreso com os trabalhos realizados por meus colegas neste projeto, com uma qualidade artística muito alta. Isso também me ajudou a refletir e a suavizar minhas ideias e minha apreciação sobre essa nova forma de ver a arte digital. Ainda somos nós que devemos enviar as ideias por meio dos prompts, e sem isso, a IA não funcionaria (pelo menos agora). Ainda somos os seres pensantes, e quero ficar com essa ideia por enquanto. Mas é inegável que a IA nos surpreende cada vez mais, ultrapassando limites futuristas e avançando a um ritmo assustador. Espero que esse avanço seja bem conduzido, em benefício da natureza e das pessoas.
Fig. 7.1. Azul – Nicolás Jiménez Reyes, Um homem e uma mulher com os olhos fechados, imagens geradas com o Midjourney v.5.1. Acima, prompt original em inglês e espanhol; abaixo, o mesmo prompt, mas apenas em inglês: ‘Um homem e uma mulher com os olhos fechados em primeiro plano; ao redor deles, observa-se o universo com uma variedade de cores. Da cabeça do homem e da mulher surgem frases, COM PALAVRAS ESCRITAS, como: “Respeito, felicidade, equilíbrio, segurança e coragem”’, maio de 2023. (Nota: As
imagens geradas nem sempre representam o que o prompt especifica. Por exemplo,
aqui, às vezes as figuras têm os olhos fechados, outras vezes não. Da mesma forma, as
imagens resultantes nunca refletiram as frases que o artista pretendia.)
Fig. 7.2. Azul–Nicolás Jiménez Reyes, Dança para o Universo, pintura acrílica sobre tela, 2020.
Nota dos editores: ‘Inche pignen’ significa ‘meu nome é’ em Mapudungun/Mapuzungun. ↑