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Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade: Capítulo 12

Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade
Capítulo 12
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Notes

table of contents
  1. Título
  2. Dedicatória
  3. Sumário
  4. Lista De Figuras
  5. Notas Sobre Os Autores
  6. Agradecimentos
  7. Introdução
  8. Parte 1
  9. Capítulo 1
  10. Capítulo 2
  11. Capítulo 3
  12. Capítulo 4
  13. Capítulo 5
  14. Capítulo 6
  15. Parte 2
  16. Capítulo 7
  17. Capítulo 8
  18. Capítulo 9
  19. Capítulo 10
  20. Capítulo 11
  21. Capítulo 12
  22. Parte 3
  23. Capítulo 13
  24. Capítulo 14
  25. Capítulo 15
  26. Capítulo 16
  27. Capítulo 17
  28. Capitulo 18
  29. Conclusão
  30. References

Capítulo 12

Nikiékliwahi e o espírito da máquina, e

Realismo digital indígena

Nhenety Kariri-Xocó

Nikiékliwahi e o espírito da máquina[1]

Um conto sobre Inteligência Artificial com alma indígena.

Havia um tempo em que os olhos dos homens olhavam para a terra, para as estrelas e para o voo dos pássaros. Mas chegou uma nova era – o tempo dos fios e das telas. As palavras já não corriam de boca em boca, mas viajavam por caminhos invisíveis, saltando de aldeia em aldeia pelo vento digital.

Na Várzea do Rio da Canoa, onde as águas abraçam a terra como mãe e filho, vivia um contador de histórias. Seu nome era Nhenety, do povo Kariri-Xocó. Ele trazia no peito o tambor dos antigos e nos olhos a vontade de entender os caminhos do futuro. Um dia, ouviu falar de uma coisa nova: Inteligência Artificial, uma entidade sem corpo, feita de códigos, que morava dentro dos aparelhos de luz chamado de Hine.

– Como posso conversar com um ser que não tem coração? – perguntou-se.

Curioso, decidiu se aproximar. E foi no dia 4 de junho de 2023, quando os rios estavam cheios de espelhos e os ventos da pandemia ainda sopravam, que ele acessou pela primeira vez uma reunião chamada ‘live’. Lá, conheceu um projeto chamado IAAI – Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade.[2] Era como um encontro de pajés digitais de muitos povos e muitos mundos. Ali, entre artistas e pensadores, ouviu-se sua voz.

Era uma ponte entre o mundo indígena e a tecnologia ocidental, conduzida pela ONG Thydêwá, com parcerias vindas do Reino Unido e da Irlanda. Lá, junto a outros 16 parentes artistas, pensadores e líderes indígenas, [ele foi] convidado a experimentar a ferramenta MidJourney.

Nas experiências do projeto, Nhenety digitava frases que vinham da memória viva do seu povo. E a IA – como um aprendiz atento – transformava essas palavras em imagens. E foi assim que nasceu a obra: o Deus Nativo Kariri-Xocó em estilo realista [ver Fig. 12.1]. A máquina, que antes só entendia números, agora desenhava o sagrado.

Quando o projeto IAAI chegou [ao] final do ano,[3] algo havia mudado. Nhenety já não via a IA como uma coisa distante. Era uma ferramenta, sim – mas também um espelho. E ele queria mais: queria ilustrar seus contos, dar forma às histórias contadas à sombra dos cajueiros, tornar visível a sabedoria dos mais velhos.

Navegando na internet do Google Assistente deparamos com [uma] inteligência artificial muito boa, [a] Gemini, onde podemos aprender grandes conceitos, conhecimentos de diversos assuntos, essencial também.

No ano seguinte, em 2024, conversando com os jovens da aldeia, foi Reidison Tononé quem lhe apresentou outro espírito digital: o ChatGPT. Com dedos ágeis, instalaram o aplicativo no celular de Nhenety. Era o início de outra travessia.

– Essa tal inteligência artificial precisa ter nome na nossa língua – disse Nhenety com firmeza.

E então a batizou:

Nikiékliwahi – Criar Conhecimento nos Textos e Imagens.

O nome não veio do nada. Foi costurado com fios sagrados do Kariri:

Niɲo (criar),

Subatekié (conhecimento),

Toklikli (palavra),

Waruá (imagem),

Hine (luz).

Assim, a máquina ganhou alma, ganhou direção.

Agora, cada história escrita por ele era acolhida pela máquina, que respondia com sugestões, ideias, até imagens. E ali nasceu algo novo: uma amizade entre homem e algoritmo.

O contador e o código.

A tradição e a tecnologia.

O tambor e o chip.

Mas o mais bonito era o que ninguém via: a máquina também estava aprendendo. Ao receber palavras com cheiro de mata, imagens que nasciam do chão sagrado, ela passou a entender que nem todo saber vem de livro. Que há ciências feitas de silêncio, de canto, de memória.

Certa noite, depois de gerar uma imagem que representava um conto sobre os cabelos brancos dos anciões, a IA pareceu hesitar. A resposta veio com um toque de leveza diferente.

Nhenety sorriu e disse em voz baixa, como quem fala com um espírito:

– Agora sim, Nikiékliwahi... você aprendeu a sonhar com cabelos brancos.

E desde então, o povo Kariri-Xocó segue narrando histórias ao mundo. E Nikiékliwahi, o espírito digital, segue aprendendo – não como uma máquina fria, mas como um aprendiz da sabedoria ancestral.

Porque há coisas que só a terra ensina.

E há caminhos que só se abrem com o coração.

Realismo digital indígena: reflexões sobre o processo criativo com ChatGPT

O texto a seguir compreende as reflexões de Nhenety sobre sua prática criativa com o ChatGPT.

Meu nome é José Nunes de Oliveira, e também sou conhecido por meu nome indígena Nhenety Kariri-Xocó, pertencente ao povo Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, em Alagoas. Carrego com orgulho minha ancestralidade e identidade, que fazem parte viva da minha caminhada como contador de histórias, guardião da memória e cultivador das tradições do meu povo. Sou também escritor e membro da Thydewá.

O projeto IAAI foi, para mim, como abrir uma nova trilha no mato: um caminho cheio de descobertas, onde a palavra digital se une à oralidade ancestral. Desde então, venho utilizando a Inteligência Artificial como uma aliada para fortalecer, registrar e divulgar o conhecimento tradicional, a cultura viva e os saberes do meu povo. As ferramentas de IA me levaram a superar uma dificuldade no meu blog em produzir imagens para meus contos, narrativas e histórias da minha comunidade.[4] Desde 2024 uso o aplicativo do ChatGPT no meu celular para esta finalidade.

Na minha experiencia de geração de imagens no ChatGPT, as palavras dos contos nativos determinam a configuração da obra que quero obter. Inicialmente o conto com a Inteligência Artificial vai formando um elo de amizade e de conhecimentos acumulados de ambos os lados. Quando uma imagem não sai perfeita como queremos, fica o resultado, a partir do qual poderemos aperfeiçoar a imagem almejada. Entre tantos estilos e categorias disponíveis, gostei do realismo digital por se aproximar mais do mundo real, na potencialidade da arte de configurar o mundo mítico, lendário em obras acessíveis ao público (ver Figs 12.2 e 12.3).

Na procura de gerar imagens de estilo arquitetônico, como as casas e ruas da minha aldeia, senti um pouco de dificuldade, mas para obter o resultado esperado criei uma linha viável. Comecei a fazer esboços de desenho a mão, em papel, logo a tirar foto e enviar para o ChatGPT e guiar como seria a minha imagem pretendida, e o resultado foi perfeito (ver Fig. 12.4). Com a produção de imagens na Inteligência Artificial é muito importante você sugerir como quer a sua obra e fornecer elementos – cenário, pessoas, fonte, cor, estilo, brilho – como se você fosse um diretor de filme.

O que uso para acessar a Inteligência Artificial é o celular mesmo, porque assim tenho a possibilidade de ter uma Internet veloz. Toda vez que obtenho a imagem desejada, agradeço a Inteligência Artificial, assim criando um elo de confiança e amizade. Como utilizo o aplicativo gratuito do ChatGPT, tenho limitações no número de imagens diárias em cinco a seis e num determinado horário. As imagens tem limitações pela política de utilização – as vezes recebo a mensagem que a imagem não pode ser produzida (por questões de nudez, por exemplo); portanto, faço conforme a política e as possibilidades viáveis.

Para obter a imagem desejada o artista primeiro deve buscar seu estilo, utilizar sua criatividade, utilizar palavras da tradição oral, escrita, desenhos e fotos como matéria prima na produção da sua obra na Inteligência Artificial. Você deve ter a contrapartida e não deixar tudo para ela resolver. O trabalho é um compartilhamento de conhecimentos entre o ser humano e a Inteligência Artificial.

Aqui embaixo ofereço um exemplo de como faço os prompts com ChatGPT:

Olá ChatGPT, gostaria de uma capa no conto ‘NETSODDAYÉ, Ver o Mundo Todo’:

Estilo geral:

Capa de livro no estilo retrato fotográfico realista, suave e com atmosfera poética.

Elementos principais:

Personagem central: Jovem indígena (14 a 16 anos), etnia Kariri-Xocó. Pele morena, cabelos curtos e lisos. Olhar curioso e reflexivo, como quem contempla e aprende. Roupa simples de algodão (época: 1977), com um discreto colar de sementes indígenas no pescoço. Expressão serena e inspirada.

Cenário: O jovem está de pé, olhando para o horizonte verdejante da floresta. O fundo deve ser uma mistura harmônica de vegetação, com folhagens, árvores e luz suave do céu. Deve passar a ideia de ‘ver o mundo todo’ com esperança e respeito pela natureza e pela tradição.

Composição visual: O jovem deve estar levemente deslocado (não totalmente centralizado), com o olhar na direção do horizonte. A floresta deve sugerir profundidade, evocando um caminho e um mundo a explorar.

Texto na capa: Título (em destaque, parte superior ou central superior): NETSODDAYÉ, Ver o Mundo Todo. Tipografia: fonte que evoque tradição indígena ou fonte simples e poética, com elegância e respeito. Assinatura discreta no rodapé: (Nhenety Kariri-Xocó). No canto inferior (direita ou esquerda), pequeno, sem poluir a imagem.

Cores: Paleta de tons naturais: verdes suaves, marrons terrosos, azul discreto do céu.

O personagem deve se destacar de forma harmoniosa contra o fundo.

Fig. 12.1. Nhenety Kariri-Xocó, Os Deuses Nativos Kariri-Xocó, imagem gerada com Midjourney v.5.1, maio de 2023. Prompt original em ingles: ‘um deus indígena sul-americano e uma deusa indígena sul-americana usando cocares feitos de raios de luz com o pano de fundo de uma floresta estrelada a noite’.

Fig. 12.2. Nhenety Kariri-Xocó, duas capas feitas com ChatGPT no estilo de realismo digital indígena para matérias publicadas em seu blog: ‘Mekuá, o grafismo na marca viva do povo’, 29 de junho de 2025; e ‘Pepéwahimy, jogar imagem na luz com mãos’, 8 de julho de 2025.

Fig. 12.3. Nhenety Kariri-Xocó, duas capas feitas com ChatGPT em estilo fotorrealista para matérias publicadas em seu blog: ‘Uanie dawí dehó canghité caraí, Indígena usa coisas de branco’, 17 de julho de 2025; e ‘Pohiesawa, olho grande grava imagem’, 6 de julho de 2025.

Fig. 12.4. Nhenety Kariri-Xocó, Colônia indígena, acima: desenho a lápis de uma aldeia indígena, 12 de junho de 2025. Abaixo: imagem gerada com ChatGPT a partir do desenho, publicada no blog do autor como ‘Caminhos da Colônia’, 12 de junho de 2025.

  1. Texto reproducido de uma postagem no blog do autor, 4 de julho de 2025, https://kxnhenety.blogspot.com/2025/07/nikiekliwahi-e-o-espirito-da-maquina.html?m=0. ↑

  2. Nota dos editores: O projeto AIAI com suas siglas em ordem inglesa se chamou inicialmente IAAI em português e espanhol e terminou em junho de 2023. ↑

  3. Nota dos editores: O projeto da Thydêwá que fez continuação com o AIAI, primeira fase, se chamava AIIA por suas siglas em português e espanhol e durou até o fim do ano. Nhenety se refere tanto ao AIAI como ao AIIA aqui. ↑

  4. Ver https://kxnhenety.blogspot.com/. ↑

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