Capítulo 3
Arte indígena e IA
Thea Pitman
É notável que muitas das vozes que criticam a IA a partir de uma perspectiva de(s)colonial e/ou indígena, em um contexto (pós-)colonial anglófono, sejam as de artistas. No evento residencial ‘Indigenous Protocol for Artificial Intelligence’ [Protocolo indígena para a Inteligência Artificial], organizado por Jason Edward Lewis e seus colaboradores e realizado em Honolulu em 2020, embora o foco explícito da oficina não fosse especificamente a criação artística, um número significativo dos participantes era composto por artistas ou designers que trabalhavam em diversas mídias, entre eles o próprio Lewis, juntamente com Kite, Skawennati (Kanien’kehá:ka [Mohawk]), Scott Benesiinaabandan (Anishinaabe), Michelle Brown (Diné [Navajo]), Angie Abdilla (Palawa) e outros. Isso fez com que seus exemplos e debates refletissem, em grande medida, as perspectivas dos artistas.
Essa participação dos artistas na teorização da IA indígena coincide com os argumentos apresentados por alguns dos críticos da representação racial na IA generativa, no mundo da arte e no âmbito da cultura visual em geral, conforme mencionado no Capítulo 1, que também recorrem a artistas pertencentes a minorias raciais para mostrar o caminho a seguir. Por exemplo, Michele Elam, em seu artigo ‘Signs Taken for Wonders: AI, Art, and the Matter of Race’ [Sinais tomados por maravilhas: IA, arte e a questão racial] (2023), sustenta que
Em vez de pedir aos artistas que se adaptem aos modelos de mundo e às pedagogias que sustentam a formação tecnológica – que, como ocorre com qualquer educação, não consiste simplesmente na aquisição neutra de habilidades, mas na inculcação de formas muito concretas de pensar e agir –, a indústria faria bem em se adaptar às práticas culturais vernáculas mais amplas e à téchne das comunidades marginalizadas negras, latinx e indígenas. Isso poderia mudar o foco do debate na indústria tecnológica, que deixaria de se concentrar simplesmente em mitigar os danos ou a responsabilidade decorrentes do impacto diferencialmente negativo das tecnologias nessas comunidades. Em vez disso, exigiria uma mentalidade na qual essas comunidades fossem reconhecidas como parceiras em pé de igualdade, como produtoras culturais de conhecimento(s) e como criadoras de longa data – e não apenas como receptoras e consumidoras – das tecnologias. (245)
Conclui, como já foi apontado anteriormente, destacando os ‘artistas-tecnólogos de IA, especialmente os não brancos’, como os mais adequados para ‘reimaginar’ a IA e seu impacto na sociedade (254).
De maneira semelhante, em um relatório resultante de um evento residencial de artistas organizado pela ONG Salzburg Global em 2024 e dedicado a ‘Creating Futures: Art and AI for Tomorrow’s Narratives’ [Criando futuros: arte e IA para as narrativas de amanhã), os autores afirmam que, ‘Graças à sua capacidade de trabalhar de forma crítica com a tecnologia, os artistas desempenham um papel fundamental na detecção de falhas, imprecisões e limitações da IA, bem como no questionamento das aplicações da tecnologia em toda a sociedade’, e, além disso, que
É vital que todos os artistas possam explorar essas [novas ferramentas] no contexto global de múltiplas culturas e formas de ver o mundo. Para isso, devemos ampliar os níveis de conhecimento em IA e envolver gerações de artistas – tanto novas quanto experientes –, grupos sub-representados e comunidades indígenas, de modo que todos possam compartilhar suas perspectivas de forma autêntica e deixar sua marca no desenvolvimento da IA. (Elliot 2024)
Nesse sentido, seu argumento em relação aos ‘grupos sub-representados e às comunidades indígenas’ baseia-se mais na inclusão, em contraste com a identificação feita por Elam (2023) dos ‘artistas-tecnólogos de IA’ como aqueles que realmente estão na vanguarda das respostas criativas à IA.
Quanto à forma como os artistas indígenas poderiam abordar a IA, essas novas tecnologias e a possibilidade de gerar imagens de qualquer coisa que se deseje – incluindo aquelas que são tecnicamente impossíveis ou, pelo menos, improváveis – têm tendido a fomentar práticas artísticas revisionistas ou especulativas e futuristas. Na abordagem revisionista, essas ferramentas podem ser utilizadas para preencher lacunas no registro histórico quando não existem retratos dos antepassados ou para subverter as perspectivas dominantes, mudando, literalmente, o ângulo a partir do qual uma cena é capturada ou ampliando o enquadramento (‘inpainting’, na terminologia da geração de imagens com IA) para ver coisas que normalmente não são representadas. De forma mais especulativa e futurista, a IA generativa é frequentemente utilizada como um meio para imaginar, visualizar e ‘sonhar’ futuros indígenas, de acordo com o conceito de ‘imaginário do futuro’ de Lewis e seus colegas. Em uma análise de sua própria prática artística em relação às ferramentas de IA, Kite (2021) destaca a importância de sonhar, nesse sentido, colocando sutilmente a natureza generativa das ferramentas de IA a serviço do sonho:
Sonhar é difícil, complexo e generativo. Sonhar valoriza o incognoscível acima do cognoscível. Sonhar cria novo conhecimento. Sonhar é o ato de criar arte. A arte é a tradução dos sonhos. Sonhar coletivamente é a concentração de nossos sonhos, o que potencializa sua força. Quando, como coletivo, criamos algo tão sagrado, sonhar é percebido como uma forma de resistência.
Entre os artistas indígenas, também se debate a questão de a IA ser considerada uma ferramenta ou um colaborador não humano que deveria ser tratado como um ‘parente’. Enquanto isso, de fora, alguns críticos argumentaram que a IA não passa de mais uma ferramenta para os artistas indígenas e que ‘ao integrar a IA à arte indígena, ela pode se tornar uma prática indígena por si só e nos permitirá acrescentar mais um capítulo à longa história da cultura visual indígena’ (Rtology 2022, ‘What is the meaning of AI indigenous art?’ [O que significa arte indígena com IA?]), outros, como Lewis e seus colegas, sustentam que ‘nosso objetivo é que nós, como espécie, descubramos como tratar esses novos parentes não humanos de forma respeitosa e recíproca, e não como meras ferramentas ou, pior ainda, como escravos de seus criadores’ (Lewis et al. 2018, 2). Karina Kesserwan (2018) também recorre às epistemologias indígenas – nas quais entidades não humanas, como montanhas e rios, bem como animais, recebem respeito e lhes é atribuído um ‘espírito’ – para argumentar que a IA deveria ser entendida como ‘parente não humano’ dentro de um ‘círculo de relações’ ampliado.[1] E, como extensão dos debates sobre o parentesco, Kite e outros (ver Menezes 2025) também exploraram a ideia de que o que os artistas estão fazendo é, potencialmente, criar ‘ancestrais de IA’ para as gerações futuras. Talvez se trate de uma interpretação indígena do argumento do filósofo Nick Bostrom (2009), segundo o qual os atuais desenvolvedores e usuários da IA serão os antepassados de seres futuros que poderiam ser, no todo ou em parte, IA (ou seja, se é que nós mesmos já não somos simulações de IA, como ele especula em outro lugar [Bostrom 2003]), e, portanto, temos uma responsabilidade considerável pelo que nós, os ‘futuros ancestrais’, fazemos agora e por como isso influenciará a forma como o futuro se desenvolverá. A versão indígena desse cenário é bem menos alarmista, já que as epistemologias indígenas estão mais voltadas para a coexistência e a colaboração com entidades não humanas.
No entanto, todas essas abordagens coincidem na vontade de conceber uma relação frutífera entre a arte (e os artistas) indígenas e a IA. Muitas outras vozes têm expressado sérias preocupações sobre o potencial das ‘ferramentas’ de IA generativa de aumentar exponencialmente a apropriação cultural ou a ‘colonização’ da obra dos artistas em geral (Dhar 2023) e da arte indígena em particular (Hendrix 2023; Wilson 2024). Ver, por exemplo, a oferta do site do NightCafe Studio para ajudar seus usuários a ‘Criar arte de inspiração aborígine com IA’: ‘Crie facilmente sua própria arte aborígine com nosso gerador de imagens gratuito baseado em IA. Não é preciso ter experiência!’.[2] Além disso, as tentativas de corrigir a invisibilização ou a representação errônea dos povos indígenas nas principais ferramentas comerciais de geração de imagens por meio do fornecimento de mais e melhores dados (se é que algum dia se conseguiria fornecer dados suficientes) provavelmente não farão mais do que proporcionar à sociedade majoritária melhores formas de se apropriar da produção cultural dos povos indígenas. Essas são questões com as quais qualquer iniciativa artística indígena relacionada à IA generativa terá de lidar.
Ver também o artigo teórico de Rodrigo Bonaldo e Ana Carolina Barbosa Pereira (2023) intitulado ‘Potential History: Reading Artificial Intelligence from Indigenous Knowledges’ [História potencial: uma leitura da Inteligência Artificial a partir dos conhecimentos indígenas], que analisa as epistemologias indígenas amazônicas e sua concepção das entidades não humanas como agentes dotados de subjetividade, como forma de ajudar a sociedade não indígena a enfrentar os desafios da IA. ↑
Existem algumas interpretações mais generosas, embora potencialmente ingênuas, nas quais se considera que as ferramentas de IA também são úteis para identificar e prevenir o roubo de obras de arte e a apropriação cultural (Carlson e Richards 2023), ou para ajudar os artesãos indígenas a imaginar novas variações dos desenhos tradicionais que possam posteriormente criar e vender (Rodríguez Blanco 2024). ↑