Capítulo 9
De uma conta própria a um modelo próprio
Haylly Zamora Aray
Uma identidade própria
Sou artista visual, artesã e pesquisadora indígena, membro dos povos Wichí do norte da Argentina e Kariñ’a do estado de Bolívar, na Venezuela. Atualmente, resido no Chaco, na Argentina. Meu trabalho artístico combina técnicas tradicionais com inovações digitais, a partir de uma abordagem colaborativa e de diálogo intercultural. Desde 2022, colaboro com a série de livros Abya Yala com Amor [da ONG Thydêwá], onde conheci Sebastián, que serviu de ponte para que eu conhecesse Thea e, assim, participasse do projeto AIAI.
Ao ouvir falar do projeto AIAI, eu não tinha muitas informações sobre as IAs e ainda tenho pouco conhecimento sobre o assunto. No entanto, o contato com elas (as IAs geradoras de imagens) despertou em mim muita curiosidade e vontade de continuar criando prompts e imagens no meu tempo livre; também de refletir e encontrar maneiras pelas quais essas ferramentas tecnológicas de geração de imagens possam ser úteis em processos educacionais.
Então, meu primeiro passo foi criar minha própria conta no Midjourney – com a ajuda do meu sobrinho –, onde minha família e eu experimentamos várias maneiras de criar prompts. Testamos prompts simples, como ‘uma mulher bonita’, escritos em diferentes idiomas, para ver se o idioma determinava a cor da mulher. (Todas saíram brancas e ocidentais, a menos que adicionássemos uma palavra como ‘indígena’, e as indígenas sempre se pareciam com as do México e não com a gente, do Chaco argentino; e se colocássemos ‘native’ em vez de ‘indigenous’ no prompt em inglês, elas saíam como nativas americanas.) E também testamos com outros prompts para ver se conseguíamos chegar às imagens mais próximas do que queríamos ou do que tínhamos em mente.
Em 2024, por meio do Programa de Cultura para os Povos Indígenas do Governo do Chaco, alguns professores indígenas e eu realizamos uma série de oficinas chamadas ‘wela/nala’ (lua/sol, em Wichí Ihämtes), nas quais discutimos a geração de imagens com IA e a representação de pessoas que se parecem conosco, originários do Chaco, além de seus possíveis usos. Começamos pedindo aos jovens que descrevessem com palavras uma pessoa do Chaco ou um amigo local deles, e isso se mostrou muito difícil para eles; portanto, gerar imagens com IA que se pareçam com nosso povo nos parece extremamente difícil de se conseguir por meio de prompts textuais. No entanto, outra ideia que nos ocorreu foi como, por meio dessa experiência de gerar imagens e discutir os resultados com os jovens, também seria possível promover diálogos entre pequenos grupos de jovens estudantes do ensino médio e professores indígenas.
Um passo mais pessoal foi enviar imagens das minhas obras e brincar com elas na IA, observando como ela as interpretava e que tipo de imagens ela me devolvia. Às vezes, eu enviava uma foto de uma obra minha e pedia que a IA gerasse um prompt textual em inglês com base nessa obra. Depois, usava esse mesmo prompt para gerar novas imagens. Além disso, enquanto experimentava com o Midjourney, brinquei com outras IAs para verificar a qualidade das imagens e quão acessíveis elas eram para as pessoas. Posteriormente, a Meta lançou sua IA no WhatsApp, que é o aplicativo de mensagens que quase todo mundo usa na Argentina, e isso fez com que essa lacuna se reduzisse.
Naquele momento, quando já tinha tantas imagens, pensei que precisava fazer algo com elas. Por isso, criei um Instagram para postar algumas das imagens e fazer algumas comparações entre as imagens feitas por mim e as criadas pela IA. E, a partir daquele momento, também comecei a refletir se realmente é necessário ter tantas imagens que não serão utilizadas: o que acontece com essas imagens? O que podemos fazer? Podemos fazer reciclagem digital? (Estou sempre cheia de perguntas…)
O Homem-puma tem origem nos relatos ancestrais do povo Wichí. As imagens geradas por IA (ver Fig. 9.1, as imagens do centro e da parte inferior) baseiam-se em uma descrição textual de uma pintura que eu havia feito anteriormente (ver Fig. 9.1, a imagem da parte superior). Usei o tradutor do Google para conseguir escrever o prompt em inglês. A imagem do meio foi a que ficou mais próxima daquela que eu tinha em mente, devido aos traços gráficos e à forma zoomórfica de seu rosto que, na minha imaginação, está equilibrada e poderia ser real.
A Mulher com wiphala é uma imagem inspirada em uma pintura minha (ver Fig. 9.2, a imagem acima), criada a partir do sentimento das lutas indígenas pela preservação do nosso território. A do centro, com cores mais opacas, foi recriada com o Stable Diffusion a partir de uma foto da própria pintura, sem um prompt textual. A de baixo, com cores mais fortes, eu a criei com o Midjourney usando um prompt textual em espanhol junto com uma foto da obra – coloquei ‘Fuji film’ no prompt para que ele me desse uma imagem realista com cores fortes. Gosto do resultado neste caso e acho que ele está mais próximo da minha obra, mas a mulher parece ser uma indígena mexicana e a IA claramente não ‘entende’ o que é uma wiphala nem o significado da disposição dos quadradinhos de cores específicas.
Um modelo próprio
Gostei de poder acompanhar cada etapa desse projeto, pois avançamos juntos, no nosso ritmo, levando em conta as necessidades do momento de cada artista. Nesta nova etapa com o Stable Diffusion, pude experimentar a IA sob outra perspectiva, na qual há um pouco mais de controle sobre o que geramos. Para mim, tem sido um pouco mais difícil porque é outro nível de complexidade. No entanto, depois de compreender e superar o processo de treinamento da IA e chegar à geração das imagens, fica mais divertido imaginar junto com a máquina. Eu a treinei com os tecidos tradicionais Wichí, pensando em um dragão, porque é assim que se chama o laptop onde nosso protótipo está guardado (ver Fig. 9.3).
Fiquei impressionada ao ver que algumas das imagens que o protótipo me presentou eram muito parecidas com artesanatos feitos nas comunidades; mostrei ao meu pai, e ele perguntou quem as vendia. Eu disse que eram feitas por inteligência artificial, e ele respondeu que eu mesma poderia fazer isso. Eu não sei tecer o tecido tradicional, mas isso me fez pensar nisso, em que eu poderia aprender a tecer. Embora sempre tenha pensado que queria fazer isso, nunca tinha reservado tempo até ver essa imagem da IA. Então, comecei a tecer.
Fig. 9.1. Haylly Zamora Aray, acima: Homem-puma, pintura a óleo, junho de 2023; no centro e abaixo: imagens do Homem-puma geradas com o Midjourney v.5.2. Prompt original em inglês: ‘Um puma com forma humana, no estilo indígena da Argentina, com desenhos na pele’, junho de 2023.
Fig. 9.2. Haylly Zamora Aray, acima: Mulher com wiphala, pintura acrílica sobre papel, julho de 2023; no centro: imagem de Mulher com wiphala gerada com o Stable Diffusion, julho de 2023; abaixo: imagem de Mulher com wiphala gerada com o Midjourney v.6.0. Prompt original: ‘Mulher indígena com a wiphala ao fundo. Fuji film [filme Fuji]’, março de 2024.
Fig. 9.3. Haylly Zamora Aray, acima, à esquerda e à direita: fotografias de tecidos Wichí utilizadas para treinar seu modelo LoRA; abaixo, à esquerda: Dragão Wichí, imagem gerada com o protótipo IndigenIA utilizando seu próprio modelo LoRA baseado nos tecidos Wichí; abaixo, à direita: fotografia de artesanato tradicional Wichí, elaborado com fibra de chaguar (Bromelia hieronymi), para mostrar a semelhança com a imagem gerada, junho de 2025.