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Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade: Capítulo 10

Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade
Capítulo 10
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Notes

table of contents
  1. Título
  2. Dedicatória
  3. Sumário
  4. Lista De Figuras
  5. Notas Sobre Os Autores
  6. Agradecimentos
  7. Introdução
  8. Parte 1
  9. Capítulo 1
  10. Capítulo 2
  11. Capítulo 3
  12. Capítulo 4
  13. Capítulo 5
  14. Capítulo 6
  15. Parte 2
  16. Capítulo 7
  17. Capítulo 8
  18. Capítulo 9
  19. Capítulo 10
  20. Capítulo 11
  21. Capítulo 12
  22. Parte 3
  23. Capítulo 13
  24. Capítulo 14
  25. Capítulo 15
  26. Capítulo 16
  27. Capítulo 17
  28. Capitulo 18
  29. Conclusão
  30. References

Capítulo 10

A Inteligência Artificial e a cosmofloresta, e

Representando os parentes e os encantados com IA

Tadeu Kaingang

A Inteligência Artificial e a cosmofloresta[1]

Cosmofloresta: uma visão envolvente da natureza

O termo cosmofloresta (referindo-se uma combinação de nosso meio ambiente e nossa cosmologia) representa uma visão de mundo que transcende a mera definição biológica de uma floresta. Ele engloba a relação profunda e intrínseca entre os seres humanos, a natureza e o universo, como percebida por diversas culturas indígenas. Não se trata apenas de árvores e animais, mas de um sistema vivo onde tudo está conectado:

Cosmovisão na perspectiva da espiritualidade. A floresta é vista como um espaço sagrado, habitado por espíritos e ancestrais, e cada elemento possui um significado e um propósito.

Aspecto da ancestralidade em diálogo aos conhecimentos tradicionais. Isso abrange um vasto corpo de saberes sobre plantas medicinais, ciclos naturais, gestão sustentável da terra e a interdependência de todas as formas de vida.

Contexto dos grupos étnicos Jê[2] e sua organização social. As comunidades indígenas frequentemente estruturam suas vidas e suas práticas em harmonia com os ritmos e as características da floresta.

Conceito do Bem Viver indígena. A saúde física e mental dos indivíduos está diretamente ligada a saúde e vitalidade do ambiente ao seu redor.

A cosmofloresta, portanto, é um conceito que envolve ecologia, espiritualidade, cultura e conhecimento, oferecendo uma perspectiva sensível que favorece uma abordagem holística e respeitosa sobre a vida na terra.

A Inteligência Artificial ao serviço da cosmofloresta

A cocriação indígena com pessoas e tecnologias não indígenas pode ser uma estratégia de resistência que permite aos povos indígenas apropriarem- se de ferramentas não indígenas, as quais são então utilizadas como alavanca para seu trabalho de defesa de direitos nas áreas da educação, ciência e tecnologia. O uso da IA nesse sentido é promissor.

A aplicação da Inteligência Artificial em projetos relacionados à cosmofloresta, quando feita em cocriação genuína com povos indígenas, pode ser uma ferramenta poderosa para o seguinte:

A valorização e preservação do conhecimento tradicional. A IA como ferramenta pode auxiliar na organização, digitalização e até mesmo na difusão de conhecimentos ancestrais, sempre sob a orientação e permissão das comunidades. Isso pode incluir a catalogação de plantas medicinais, histórias orais, cantos e rituais.

Os estudos e aplicações para monitoramento ambiental. Algoritmos podem analisar dados de satélite, drones e sensores para monitorar o desmatamento, queimadas, invasões de terras indígenas e a saúde da biodiversidade, fornecendo informações cruciais para a proteção territorial.

A educação e conscientização. A IA pode ser usada em programas de educação emancipadora para apoiar a autonomia curricular indígena, e também pode ajudar a criar ferramentas interativas e imersivas para educar o público em geral sobre a importância das florestas, a cultura indígena e os desafios enfrentados por essas comunidades.

O fortalecimento da autodeterminação indígena. Ao invés de impor soluções, a IA deve ser uma ferramenta a serviço das necessidades e prioridades estabelecidas pelas próprias comunidades, fortalecendo sua capacidade de gestão e defesa de seus territórios e culturas.

É crucial ressaltar que a cocriação significa que a iniciativa, o controle e a propriedade dos dados e resultados devem permanecer com as comunidades indígenas. A IA deve ser uma ferramenta de suporte, e não um substituto para a sabedoria e a liderança indígenas. Isso envolve o respeito aos protocolos de consulta, o Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI),[3] e a garantia de que a tecnologia atenda às necessidades e visões de mundo das comunidades.

Geração de imagens por algoritmos: uma ponte visual

A capacidade da IA de gerar imagens (por exemplo, através de redes generativas adversariais - GANs, ou modelos de difusão) pode ser explorada de maneiras inovadoras em conjunto com o conceito de cosmofloresta e a prática da cocriação indígena:

Na visualização de narrativas e cosmologia. Algoritmos podem ser treinados com descrições e conceitos fornecidos por anciões e contadores de histórias indígenas para gerar representações visuais de seus mitos, lendas, seres espirituais ou paisagens ancestrais, tornando-os mais acessíveis e compreensíveis para públicos diversos, incluindo as novas gerações indígenas.

Na representação estética da cosmofloresta. A IA pode criar imagens que transmitam a profundidade e a complexidade da cosmofloresta, indo além de uma representação meramente botânica. Isso pode incluir elementos simbólicos, cores e formas que reflitam a visão indígena da interconexão entre vida, espírito e ambiente (ver Fig. 10.1).

Como ferramenta para expressão artística indígena. Artistas indígenas poderiam usar essas ferramentas de IA como um novo meio para expressar suas visões e conhecimentos, combinando técnicas tradicionais com as possibilidades da arte digital. Isso poderia abrir novas avenidas para a criatividade e a difusão de suas culturas.

Na produção de material didático e de divulgação. A IA pode gerar imagens para livros didáticos, exposições, campanhas de conscientização ou documentários que retratem a cosmofloresta de uma forma respeitosa e autenticada pelas comunidades.

Novamente, a chave aqui é a cocriação. As imagens geradas pela IA não devem ser impostas ou criadas sem a supervisão e o consentimento das comunidades indígenas. Elas devem ser o resultado de um diálogo contínuo onde a IA serve como uma ferramenta para visualizar e materializar as ideias, estéticas e conhecimentos que vem das próprias culturas. É fundamental evitar a apropriação cultural ou a criação de representações estereotipadas.

Acredito que a união da cosmofloresta com a Inteligência Artificial, mediada pela cocriação indígena, oferece um caminho promissor para a valorização de saberes ancestrais, a proteção ambiental e a construção de um futuro mais justo e sustentável.

Representando os parentes e os encantados com IA[4]

Eu me chamo Tadeu dos Santos. Como artista sou conhecido como Tadeu Kaingang, e no meu batismo indígena recebi o nome Tã No, que significa ‘raio’ na língua Kaingang. Sou um artista visual cuja atuação se dá em múltiplas mídias e contextos para expressar a espiritualidade, a ciência e a expressão estética que brotam da natureza, onde os encantados estão sempre presentes. Ao lado da artista Sheilla Souza, integro o Coletivo Kókir (palavra que significa ‘fome’ na língua Kaingang) dedicado a criação colaborativa com povos indígenas do Brasil e de outras regiões. Em 2023, participamos da temporada de eventos ‘Histórias Indígenas’ no MASP (Museu de Arte Assis Chateaubriand de São Paulo), um marco importante na valorização da arte indígena no país, e em 2025, tivemos uma grande exposição individual na Galeria Carmo Johnson Projects em São Paulo.

No meu trabalho no contexto do projeto IAAI,[5] eu queria gerar uma imagem de grupos de indígenas conversando com a Entidade. Eu coloquei bem específico ‘uma entidade macro’, seria a própria espiritualidade, um ser como uma planta, uma luz. Eu imaginava isto, como tem muita ilustração sobre Gaia, a Mae Terra, então tem várias representações, até bíblicas. Então como seria essa representação na cosmovisão? Eu imaginava grupos de indígenas conversando com essas entidades e elas se materializando enquanto corpo físico, como estrutura num diálogo.

Nas imagens que gerei, eu fui bastante específico em falar que queria que representassem um grupo étnico específico. Por exemplo, na Fig. 10.2, eu puxei pro Kaingang aí nessas quatro imagens. Porém, a gente percebe que não são parentes aqui da região do Brasil. Devem ser parentes da América Latina – Bolívia, Guatemala, algum outro lugar – mas não do Brasil. E a outra coisa que eu percebi é que nós estávamos falando de 2050, do futuro, e a imagem continua olhando os povos indígenas como figuras do passado, do século XVI ou século XV. Então ela não consegue, por exemplo, colocar um celularzinho na mão de alguém ali –um equipamento que, talvez, em 2050 nem precisaremos. Mas, como a gente está vendo que a tecnologia está possibilitando equipamentos, instrumentos e dispositivos de transporte e flutuação, eu não consegui enxergar esse processo. Pessoalmente, eu fiquei meio frustrado assim: ‘poxa, a Inteligência Artificial não consegue olhar o futuro’. Com tanta coisa da tecnologia, o homem atravessando a atmosfera e indo para outros lugares, e aí ela continua olhando-nos aqui, os parentes, como se a gente tivesse sido congelado no passado. Talvez as imagens na Fig. 10.3 augurem uma nova colonização – sei lá, um navio intergalático chegando, uma caravela diferente chegando. . ..

Essas figuras fantásticas, essas mesclas que eu acho nas imagens na Fig. 10.4, me fazem pensar nas obras de Hieronymus Bosch. A IA faz uma tentativa de criar essas entidades como seres, mistura de pássaro com alguma coisa que ela tenta criar, mas é mais a imagem do Éden, do Paraíso. Então eu acho que a minha leitura foi um pouco nesse caminho. Não é uma imagem crítica, não está sinalizando nenhum problema. É só uma imagem como uma fotografia posicionada: ‘Todo mundo fica certinho agora que eu vou tirar uma foto’. Parece que foi isso que aconteceu, então dá a impressão de que não está havendo esse diálogo. A Entidade não conversa com eles . . . ou é telepático talvez. Talvez seja essa interpretação para a gente poder refletir sobre essa imagem. Há uma comunicação – a Entidade invisível, espiritual, sobrenatural com que eles interagem mais assim de forma mental talvez. Isso aí a gente está forçando, fazendo um exercício muito grande para tentar encaixar essa lógica que eu, no caso, pensei.

Então eu queria provocar a ferramenta a visualizar humanos, indígenas, conversando com entidades sobrenaturais ou com a espiritualidade, a natureza, enquanto um corpo físico, sujeito ou forma. Eu acho que dos animais houve uma tentativa até certo ponto. Mas eu não ficaria satisfeito assim ver um beija-flor com uma tromba de um elefante. Acho que eu ficaria mais assustado do que falar: ‘Nossa, é uma entidade, é meu guia espiritual’

Nas imagens da Fig. 10.4, dá para ver os seres que a IA tenta criar. Tem a lebre ali com a boca de alguma coisa (veja a imagem inferior esquerda). Tem embaixo um ser, um pássaro com a cabeça de gato, parece, ou alguma coisa diferente. Acho que na imagem inferior direita tem um ser fantástico ali, tem um encantado que ela cria. Parece uma asa de mariposa, alguma coisa que está junto. E parece que a IA também nos humanos deu uma mexida – nas expressões, nos olhos. Parece que é um ser que também incorpora um corpo. Talvez seja uma entidade ali que a IA tenta criar, um encantado que está ali ‘vestindo’ esse corpo. Talvez possa ser entendido dessa maneira

Eu acho que a IA aproxima, mas que não consegue entender o abstrato. Então, ela traz pro concreto o máximo possível os animais e humanos, ambos com algumas mesclas, para tentar responder a essa provocação do sobrenatural, do fantástico, do misterioso. Mas o concreto que ela não consegue traduzir é o indígena contemporâneo.

Fig 10.1. Tadeu Kaingang, A cosmofloresta, imagens geradas com Midjourney v.5.1, maio de 2023; prompt original em inglês: ‘Uma imagem que retrata a relação dos humanos com a natureza. Um grupo de 5 indígenas Kaingang da América do Sul com 3 crianças reflorestando um pedaço de terra, plantando árvores e cuidando de animais. Um grupo de deuses da natureza em forma sobrenatural, representados como pinturas rupestres, observa a cena de cima’.

Fig. 10.2. Tadeu Kaingang, Família Kaingang I (IA).

Figs. 10.2–10.4. Tadeu Kaingang, Família Kaingang I–III, imagens geradas com Midjourney v.5.1, maio de 2023; prompt original em ingles: ‘De dia. Uma família de 5 indígenas Kaingang da América do Sul reflorestando uma clareira na floresta. Muitos animais na floresta, incluindo pássaros, mamíferos e insetos. Acima, várias entidades ancestrais da natureza observam a família’.

Fig. 10.3. Tadeu Kaingang, Família Kaingang II (IA).

Fig. 10.4. Tadeu Kaingang, Família Kaingang III (IA).

  1. Nota dos editores: Este texto foi escrito com o auxílio de IA para ‘aprimorar’ um texto original escrito pelo autor, que é severamente disléxico. O autor reconhece o valor das ferramentas da IA generativa para melhorar sua expressão escrita, embora também considere que elas produzem resultados que parecem ‘um pouco frios’ e sem alma, ou que distorcem pontos-chave que ele pretendia transmitir. ↑

  2. Nota dos editores: Os grupos étnicos Jê são povos indígenas do Brasil que falam línguas Macro-Jê. Isso inclui os Kaingang. ↑

  3. Nota dos editores: Um direito fundamental de povos indígenas e comunidades tradicionais, garantido pela Constituição Federal e pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). ↑

  4. Nota dos editores: Este texto deriva em grande parte dos grupos focais que ocorreram em maio de 2023 durante a primeira fase do projeto IAAI. ↑

  5. Nota dos editores: O projeto AIAI com suas siglas em ordem inglesa se chamou inicialmente IAAI em português e espanhol. ↑

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