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Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade: Capítulo 8

Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade
Capítulo 8
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Notes

table of contents
  1. Título
  2. Dedicatória
  3. Sumário
  4. Lista De Figuras
  5. Notas Sobre Os Autores
  6. Agradecimentos
  7. Introdução
  8. Parte 1
  9. Capítulo 1
  10. Capítulo 2
  11. Capítulo 3
  12. Capítulo 4
  13. Capítulo 5
  14. Capítulo 6
  15. Parte 2
  16. Capítulo 7
  17. Capítulo 8
  18. Capítulo 9
  19. Capítulo 10
  20. Capítulo 11
  21. Capítulo 12
  22. Parte 3
  23. Capítulo 13
  24. Capítulo 14
  25. Capítulo 15
  26. Capítulo 16
  27. Capítulo 17
  28. Capitulo 18
  29. Conclusão
  30. References

Capítulo 8

Inteligência Artificial ou os artifícios da inteligência

Lucian de Silenttio

Desenvolvo meu trabalho artístico sob o nome de Lucian de Silenttio. Considero-me um explorador das artes e, nessa busca, recorri à literatura, à fotografia, à pintura, aos têxteis e, atualmente, trabalho com a Inteligência Artificial. Nasci em uma comunidade do altiplano de La Paz, na Bolívia. Minha aldeia chama-se Pizacaviña e somos Aymara. Tenho formação em Ciências da Educação e Filosofia pela Universidade Mayor de San Andrés, áreas que continuo a seguir por paixão; para ganhar a vida, trabalho na construção civil, sou pedreiro.

Como acontece hoje em dia, tomei conhecimento do lançamento de ‘programas’ que têm sido chamados de ‘Inteligência Artificial’. No ano de 2023, aruma, uma amiga artista com quem trabalhei no passado, me convidou para fazer parte de uma equipe de artistas de várias partes da América do Sul, sendo todos – ou a maioria – de algum povo indígena. O objetivo era utilizar o programa Midjourney de criação de imagens para testar, inicialmente, as limitações que ele poderia ter ao recriar imagens de pessoas, acessórios, vivências e outros elementos característicos dos povos indígenas. Aceitei com muito prazer.

Após as primeiras abordagens e conversas com a equipe, comecei a procurar vídeos e tudo o que pudesse encontrar sobre as ‘Inteligências Artificiais’: usos, questões polêmicas, elaboração de prompts e muito mais. Comecei a experimentar e criar imagens com IAs de acesso livre e, embora os resultados fossem interessantes, percebi que elas não eram capazes de recriar pessoas e trajes dos povos do altiplano. Quando tivemos acesso (como parte do projeto) à versão paga, pude constatar que a qualidade da imagem era melhor, mas mesmo nessa versão não era possível recriar a cultura Aymara.

Essa constatação não era só minha; toda a equipe concordava com isso. Os resultados mostravam pessoas com traços da Índia, da Ásia ou a visão mais clichê (e hollywoodiana) de ‘índios com penas’. Para ser sincero, as imagens realmente tinham a qualidade de uma fotografia e isso, obviamente, impressiona, mas não refletia a realidade. De certa forma, estava criando uma imagem errada da realidade, e isso porque, na época, houve um boom de imagens criadas com IA, que eram compartilhadas nas redes sociais, e muitas pessoas estavam interpretando-as como reais. Até mesmo pessoas Aymara podiam dizer que uma imagem (com incongruências evidentes) refletia de fato como nós Aymara somos. Acho que aí reside o perigo de distorcer a realidade. Por exemplo, gerei muitas imagens que tentavam mostrar pessoas andinas e cenas de sua história, mas muitas vezes elas continham erros em detalhes importantes (ver Fig. 8.1, imagem acima). No entanto, é possível que eu também tenha contribuído para isso com minhas tentativas persistentes de criar imagens de samurais andinos (ver Fig. 8.1, imagem abaixo).

Durante todo esse tempo e até hoje, sempre trabalhei usando meu celular, por vários fatores, mas principalmente pela comodidade e portabilidade (às vezes criava imagens enquanto estava no transporte público). Eu tinha muita curiosidade e vontade de experimentar com as IAs, a ponto de começar a ensinar Aymara ao ChatGPT. Mas isso é assunto para outra reflexão.

Os diálogos e as próprias reflexões a partir dos resultados que começamos a observar nos levaram a várias perguntas. Uma delas: a IA entende o que a pessoa quer fazer? E isso surgiu porque pedi à IA que criasse o ‘Khari Khari’ ou ‘Kharisiri’, usando a palavra simples. O Khari Khari é um ser que oscila entre o mítico e o real. É descrito como uma pessoa de rosto emaciado, com olhos amarelados e injetados de sangue, pele morena, quase tendendo ao preto, o que lhe confere uma aparência sinistra. Diz-se que ele pode se transformar em um cão preto. Esse ser ataca a pessoa e extrai a gordura de seu corpo. A pessoa costuma apresentar dois orifícios simétricos no quadril, como se fossem marcas de mordida de algum animal. Ela adoece repentinamente e a doença não pode ser detectada por meio de exames laboratoriais ou de outros métodos da medicina ocidental. Se a pessoa não receber o remédio, pode chegar a morrer em questão de dias. E aqui vem o interessante. O remédio para essa doença funciona como um ‘antiplacebo’; ou seja, o ‘doente’ não deve saber para que serve o remédio, pois sabe-se que, se a pessoa descobrir que é um remédio para o Khari Khari, ela morre (ver Spedding, 2005).

Então, quando ‘passei’ a descrição (o prompt) para a IA, inicialmente em espanhol (ver Fig. 8.2, o grupo de imagens acima), os resultados não foram os esperados (acho que agora ela responde melhor a prompts em vários idiomas) e, assim, recorrendo ao tradutor, colocamos o prompt em inglês e os resultados foram mais interessantes (ver Fig. 8.2, o grupo de imagens abaixo). Não fizeram uma recriação como eu imaginava, mas havia algumas características que haviam sido captadas e se mostravam em algumas das imagens com mais destaque do que em outras. Voltando à pergunta: a IA ‘entende’ o que pedimos? A princípio, pensei que pudesse ser assim, que talvez alguma energia cósmica estivesse agindo e me desse respostas; já que as imagens que comecei a criar realmente tinham um ‘algo’. Tinham aquele ‘algo’ que a arte possui. O mesmo pensavam tanto os colegas da equipe quanto outras pessoas a quem eu mostrava os resultados. Pois, para algumas delas, a IA não respondia da mesma maneira.

Então, por se tratar de programas de computador, de códigos e algoritmos, pensei que eles não respondiam a uma energia cósmica (animismo), mas que dependiam do tipo de palavras, da forma como as descrições eram redigidas e também da seleção das imagens que se pedia que ela reutilizasse para criar variações (o Midjourney oferece quatro opções de imagens). Ccho que essa escolha de imagens fazia com que ela ‘entendesse’ o tipo de estética, qualidade etcétera que eu queria criar. Reforcei essa ideia ao saber que cada dispositivo (celular, computador) tem um IP, um código que o identifica. Assim, ao armazenar as informações desse usuário, a IA sempre ‘conhece’ nossas preferências e, nesse caso, o tipo de estética que buscamos.

Outro ponto importante aqui foi o idioma; como já mencionei, palavras em Aymara como jaqi, awayu, etcétera, ele não entendia, gerando resultados aleatórios. Com prompts em espanhol, às vezes ele respondia bem, outras vezes não. Em inglês, ele se saía melhor. E acredito que isso se deva ao fato de ser o idioma utilizado para criar seus códigos e treiná-lo; além disso, as informações utilizadas em seu treinamento estão em inglês, e esse idioma lhe proporcionou sua ‘bagagem cultural’. Obviamente, isso faz com que ele funcione melhor nesse idioma. Isso me levou à necessidade de aprender o idioma para trabalhar com essas ferramentas. O interessante das IAs generativas (texto ou imagem) é que, em alguns casos, elas respondem ao que é solicitado, dando até mesmo respostas imprecisas ou aleatórias, tudo com o objetivo de não ficar sem responder. Isso poderia levar a erros de informação ou de representação de uma cultura, com o risco de que quem não conhece uma cultura possa presumir que o que foi feito pela IA é verdadeiro. Aí reside um problema e um perigo.

É preciso entender que a IA é uma ferramenta, assim como um computador ou um martelo. São ferramentas, são meios, não fins em si mesmos, e acredito que, como povos indígenas, podemos nos apropriar delas nesse sentido. Isso acarreta e levanta uma questão de ética, uma responsabilidade ao fazer uso da ferramenta e dos produtos gerados; e digo isso porque, com as redes sociais, foi incutida na cabeça (principalmente) dos jovens essa busca pela ‘viralidade’. Nessa ânsia, podem ser criadas e compartilhadas imagens que distorcem a realidade (e, atenção, não sou contra a criação de imagens com abordagens artísticas ou experimentais, não apenas sobre os povos indígenas).

Um dos potenciais que percebi na IA, além de gerar imagens a partir de prompts, é a fusão de imagens.[1] O Midjourney permite enviar imagens como base para criar novas. Nesse exercício, usei fotos do meu rosto e comecei a fundi-las ou combiná-las com imagens de tecidos, de super-heróis, de qualquer tema. Os resultados variam e, em alguns casos, são bastante impressionantes. Na mesma linha, tive a ideia de usar fotos do meu pai, da minha mãe – fotos deles já adultos – para pedir à IA que recriasse essas imagens, mas mostrando como meu pai ou minha mãe seriam quando crianças, já que não temos fotos desse período na história da minha família (ver a Fig. 8.3, onde a imagem gerada pela IA à direita é baseada na fotografia real à esquerda). Esse foi um exercício interessante, pois, em alguns casos, pude observar como certas características faciais, como os olhos, etcétera, foram preservadas, resultando em algo bastante pessoal e até mesmo comovente, mesmo que outros detalhes, como as roupas, por exemplo, estivessem longe de ser precisos.

A partir dessa experiência, criei imagens fazendo fusões e, de fato, os resultados foram impressionantes (ver Figs. 8.4 e 8.5). Essas experiências, essas formas de ‘me relacionar’ com as IAs, assim como os diálogos, nos levaram a nos perguntar o que muitos se questionam hoje em dia: as imagens criadas com IA são arte? São “minha” (sua) arte? Você as ‘assinaria’ como suas?, Embora existam diferentes posições e argumentos, considero que são arte, mas esse produto artístico não é mais apenas fruto do ser humano, e sim dessa interação entre a máquina e o ser humano. Essa interação é fundamental, e podemos dizer que se trata de um trabalho colaborativo.

Uma coisa que fica clara é que a imagem criada com a IA não pode ser considerada um produto exclusivamente da IA ou de sua ‘autoria’. Para que possamos considerá-la dessa forma, a IA teria que criar sozinha, ‘por vontade própria’, poderíamos dizer, sem a interação com nenhum ser humano, e vemos que isso ainda não é possível (talvez daqui a alguns anos haja IAs capazes disso; talvez, a partir da interação conosco, como usuários, já esteja sendo treinada uma IA com essa característica). Por outro lado, para que consideremos que uma imagem criada com IA seja de autoria do artista, não deveria haver a interação da maneira como ela ocorre. Se observarmos com atenção uma determinada imagem, a forma como ela foi elaborada (composição, cores, traços etcétera) não pode existir apenas a partir da imaginação do artista. A IA cria uma imagem a partir de um prompt, que é uma descrição em texto de algo que o artista pensa ou deseja recriar; mas o artista não necessariamente visualizou todos os detalhes dessa descrição. Vejamos: posso escrever: ‘um dragão de fogo voando sobre uma montanha’. A partir desse texto, duas pessoas podem imaginar, acrescentando detalhes sobre cores, características do dragão, do fogo, da montanha, etcétera, assim como cada uma pode ter uma imagem mental da composição da imagem. A imagem criada com a IA a partir dessa descrição também não será exatamente como o artista visualizou a cena, e é por isso que digo que a imagem não é cem por cento obra do artista. Também ocorre, especialmente com prompts mais detalhados, que algumas partes da descrição possam ser ignoradas; ou seja, a IA pode estabelecer uma hierarquia de frases e omitir aquelas que considere repetitivas ou secundárias, mas que acrescentam detalhes essenciais que a pessoa deseja que apareçam na imagem. Sei disso por minha própria experiência na criação de imagens a partir de texto ou de outras imagens.

Por isso, embora seja uma ferramenta, assim como um pincel, um cinzel ou um martelo, o pincel, por exemplo, não ‘decide’ por si só onde, como e com que cor fazer um traço. Em todos os momentos, é o artista que produz uma imagem ou recria um retrato; em cada pincelada, o artista está envolvido. Com a IA, isso não acontece. É a IA que trabalha, realiza a composição, o uso de cores e outros detalhes. Não é como trabalhar com o Photoshop, onde o artista pode recortar partes da imagem, manipular os tons da imagem, aumentar ou diminuir o contraste à vontade; o Photoshop não faz isso sozinho. Já a IA, por outro lado, trabalha sozinha e oferece uma série de imagens (quatro ou mais, o número varia de uma IA para outra) como proposta. Essas propostas podem ser completamente aleatórias ou conter alguns elementos em comum, mas sem serem idênticas. Isso me leva a questionar se eu a assinaria como sendo exclusivamente obra minha. Acho que não me atribuiria todo o crédito, pois é preciso reconhecer que é a interação de um artista que tem toda a sua cultura, suas experiências pessoais, suas buscas, sua linguagem, o que pode dar origem à geração de imagens artísticas; porém, é a IA que propõe as imagens e o artista quem seleciona aquela ou aquelas que melhor respondem ao que ele descreveu, às suas buscas, à sua estética etcétera.

Acredito que, atualmente, como se fosse uma moda, o uso das IAs tenha diminuído ou realmente se tenha ‘estabilizado’ e, após o entusiasmo inicial, agora seja utilizado como ferramenta por profissionais de diversas áreas. Isso, obviamente, sugere a necessidade de continuar e aprofundar os debates em torno da legislação sobre o uso e o alcance das IAs. E, como disse anteriormente: isso é algo a ser discutido de forma mais profunda e extensa.

Fig. 8.1. Lucian de Silenttio, acima: Bernal Capchiri, baseado em uma fotografia real (observe que, embora a imagem mostre um cenário de terras altas, os tecidos que aparecem na imagem são das terras baixas da Bolívia); abaixo: Samurai andino, prompt original em inglês: ‘Jovem, rosto andino, vestido de samurai, vestindo tecidos andinos, uma katana nas mãos, na montanha, fotografia’. Imagens geradas com o Midjourney v.5.2, julho de 2023.

Fig. 8.2. Lucian de Silenttio, O Khari Khari, conjunto de imagens acima, prompt original em espanhol: ‘Homem de aparência estranha, às vezes é muito magro, com olhos encovados e pele pálida, às vezes é gordo e tem olhos amarelos, carrega uma espécie de seringas, Khari khari, fotografia’; conjunto de imagens abaixo, prompt original em inglês: ‘Homem de aparência estranha, rosto andino, às vezes é muito magro, com olhos encovados e pele pálida, às vezes é gordo e tem olhos amarelos, carrega uma espécie de seringas, Khari khari, foto’. Imagens geradas com o Midjourney v.5.1, junho de 2023.

Fig. 8.3. Lucian de Silenttio, Sandalio Torrez Quispe, à esquerda: fotografia do pai do artista, editada no Photoshop 2009 para aplicar um filtro sépia; à direita: retrato do pai do artista quando criança, baseado na fotografia anterior. Imagem gerada com Midjourney v.5.2, novembro de 2023.

Fig. 8.4. Lucian de Silenttio, à esquerda: fotografia de um tecido andino Jalq’a com agulha e dedal; à direita: Indígena do futuro, baseada em um prompt que combina a fotografia anterior e prompts textuais. Imagem gerada com o Midjourney v.5.2, novembro de 2023.

Fig. 8.5. Lucian de Silenttio, acima: Novelos de lã, baseada em uma fotografia tirada pelo artista em outubro de 2020. Imagem gerada com o Midjourney v.5.2, novembro de 2023; abaixo: Wiphala acidental, um remix de fotografias tiradas pelo artista em agosto de 2021. Imagem gerada com o Midjourney v.6.0, julho de 2024.

  1. Com o tempo, o Midjourney evoluiu para permitir a criação de imagens que combinam duas ou mais imagens, com ou sem texto.

    Nota dos editores: No caso das imagens geradas pelo Lucian a partir de outras imagens, combinações de imagens e texto ou combinações de imagens, não incluímos os prompts, pois eles não fazem sentido fora do contexto. Algumas incluem informações sobre se a imagem é resultado de um processo de aumento de resolução ou de reinterpretação, bem como detalhes sobre o estilo ou a versão do Midjourney utilizada. Muitas evidenciam a grande quantidade de iterações que Lucian realizou desde a imagem inicial até obter uma imagem que o satisfez e que ele quis compartilhar em seu Instagram. ↑

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