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Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade: Capítulo 5

Inteligência Artificial, Arte e Indigeneidade
Capítulo 5
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Notes

table of contents
  1. Título
  2. Dedicatória
  3. Sumário
  4. Lista De Figuras
  5. Notas Sobre Os Autores
  6. Agradecimentos
  7. Introdução
  8. Parte 1
  9. Capítulo 1
  10. Capítulo 2
  11. Capítulo 3
  12. Capítulo 4
  13. Capítulo 5
  14. Capítulo 6
  15. Parte 2
  16. Capítulo 7
  17. Capítulo 8
  18. Capítulo 9
  19. Capítulo 10
  20. Capítulo 11
  21. Capítulo 12
  22. Parte 3
  23. Capítulo 13
  24. Capítulo 14
  25. Capítulo 15
  26. Capítulo 16
  27. Capítulo 17
  28. Capitulo 18
  29. Conclusão
  30. References

Capítulo 5

Uma cronologia do projeto AIAI

Thea Pitman

AIAI: Artificial Intelligence, Art and Indigeneity [Inteligência Artificial, Arte e Indigenidade] começou como um projeto piloto de pesquisa destinado a explorar as reações de um grupo de artistas, escritores, líderes comunitários e detentores de conhecimentos tradicionais indígenas diante da nova onda de ferramentas de geração de imagens baseadas em Inteligência Artificial: as maneiras pelas quais eles podem ser (mal)representados ou invisibilizados por essas ferramentas e as formas pelas quais podem optar por interagir com elas de maneira crítica e criativa.[1] Sua origem remonta ao verão de 2022 (no Reino Unido), quando um grupo de acadêmicos da Universidade de Leeds (Tom Jackson[2] e Thea Pitman) e da Universidade da Cidade de Dublin (Andreas Rauh), todos com experiência prévia em projetos de artes multimídia com povos indígenas de Abya Yala/América Latina por meio da colaboração com a ONG brasileira de arte e comunicação indígena Thydêwá (dirigida por Sebastián Gerlic juntamente com Nhenety Kariri-Xocó, Atiã Pankararu, María Pankararu e Mayá Pataxó-Hãhãhãe),[3] decidiram solicitar uma pequena subvenção para realizar a primeira fase do projeto. A mesma equipe acadêmica voltaria a trabalhar em colaboração com a Thydêwá e com Sandra De Berduccy, a artista têxtil multimídia boliviana mais conhecida como aruma, que também havia colaborado com outros membros da equipe em projetos anteriores.[4]

Foi recrutado um grupo de dezessete pessoas indígenas de diferentes grupos étnicos localizados no que hoje é a Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Peru por meio das redes de Thydêwá e aruma, e elas foram convidadas a participar de dois grupos focais on-line (realizados em português ou espanhol), que ocorreram em maio de 2023. Entre os participantes estavam os artistas Azul–Nicolás Jiménez Reyes (Mapuche), Lucian de Silenttio (Aymara), Tadeu Kaingang e Haylly Zamora Aray (Wichí-Kariñ’a), bem como os escritores e líderes comunitários Nhenety Kariri-Xocó e Mariela Tulián, todos fundamentais para o desenvolvimento do projeto ao longo do tempo e que passaram a integrar a equipe em suas fases posteriores. Por isso, eles redigiram seus próprios capítulos sobre suas experiências para este livro. Outros participantes da primeira etapa do projeto que criaram imagens selecionadas para análise neste trabalho são os artistas Aymar Ccopacatty (Aymara), Loreto Millalén (Mapuche), Horacio Montes de Oca Ayala (ascendência andina), Kadu Tapuya e Kuenan Mayu (Tikuna-Tariano), bem como os líderes comunitários Wera Moru Tupi-Guarani e Ayra Ymboré.[5]

Durante o primeiro grupo focal, após um breve debate sobre o que é a IA generativa e quais são suas vantagens e desvantagens, foi realizada uma demonstração da ferramenta Midjourney e explicado o processo de criação e tradução dos prompts de texto que deveriam ser inseridos em inglês. O Midjourney foi escolhido por ser uma das principais ferramentas comerciais que ganhava destaque na mídia naquele momento, sobretudo por seus resultados fotográficos de alta qualidade, muitas vezes surrealistas, bem como por sua abordagem à diversidade étnico-racial. O Midjourney v.5.0, que era a versão disponível no final de março de 2023 quando começamos a trabalhar no projeto AIAI, acabara de passar de um ‘estilo de ilustração exagerado’ para um ‘aspecto mais genérico de fotografia de arquivo’, o que obteve grande sucesso entre os usuários, mas também havia alterado seu algoritmo para introduzir ‘mais diversidade étnica’ (Meyer 2025, 8). Essa última mudança no algoritmo acabou se mostrando menos popular, o que levou a empresa a restabelecer ‘a branquitude como norma’ na versão 5.1, lançada no início de maio de 2023 (Meyer 2025, 8). Embora um prompt possa especificar facilmente a versão do modelo a ser utilizada, inevitavelmente a maioria das imagens foi gerada com a versão padrão disponível naquele momento e, portanto, a versão com maior diversidade étnica não chegou a ser explorada.

Entre o primeiro e o segundo grupo focal, os participantes propuseram seus próprios prompts centrados em suas visões ou sonhos para o futuro de suas comunidades, e conjuntos de imagens foram gerados de forma colaborativa entre os participantes e os membros da equipe original. No segundo grupo focal, uma seleção desses resultados foi compartilhada e debatida.[6] Outra experiência, improvisada, realizada com alguns dos participantes que haviam perdido a segunda sessão para falantes de português, consistiu em criar imagens utilizando apenas o nome da etnia indígena de uma pessoa como prompt. Isso permitiu realizar uma experiência mais controlada para explorar a representação da etnia no Midjourney do que a visualização, a partir de texto livre, de cenas do futuro dos povos indígenas.

Posteriormente, no segundo semestre de 2023, Thydêwá conseguiu financiamento para o projeto AIIA: Apropriação Indígena da Inteligência Artificial, com o objetivo de organizar uma série de encontros virtuais para ‘[apropiarse] de la inteligencia artificial con identidad y a favor del Buen Vivir’, conforme o projeto é apresentado em espanhol em seu canal no YouTube (Gerlic 2023–2024a), o que resultou na cocriação de um e-book ilustrado com IA: Imagine: La Pequena Francisca en Abya Yala (Rede Abya Yala con Amor 2023) – baseado no formato de uma série de contos protagonizados por ‘A Pequena Francisca’ e publicados por Mariela Tulián (Avalle Montes 2024). Este projeto também utilizou o Midjourney, gerando alguns resultados de forma colaborativa e muitos outros como fruto da experimentação individual com a ferramenta. A grande maioria das imagens geradas com o Midjourney foi criada no servidor do projeto AIAI no Discord, o que facilitou enormemente o estudo dos processos de geração de imagens e da natureza de alguns dos resultados analisados na terceira parte deste livro. Alguns artistas, como Lucian e Haylly, também continuaram experimentando a geração de imagens por meio do Midjourney e de outras ferramentas em relação aos seus próprios projetos artísticos e de maneiras que superaram amplamente qualquer um dos projetos financiados; outros, como Azul e Tadeu, demonstraram uma abordagem muito mais cautelosa diante da disponibilidade das ferramentas de geração de imagens.

Em março de 2024, ocorreu a segunda fase do projeto AIAI. Com o objetivo de superar o uso de modelos comerciais convencionais e suas deficiências, essa fase se concentrou no desenvolvimento de uma ferramenta personalizada de geração de imagens, à qual decidimos chamar de IndigenIA. A ferramenta se baseia em uma versão do modelo de código aberto e configurável Stable Diffusion, que está instalado em um laptop específico ao qual os membros do projeto acessam remotamente, o que oferece maior segurança dos dados e um consumo energético global mais moderado. (A equipe decidiu chamar o próprio laptop de ‘Dragão’, devido ao logotipo da marca MSI.) O protótipo permite que cada membro do projeto treine seus próprios modelos LoRA (Low-Rank Adaptations [adaptações de baixo posto]) para que funcionem em combinação com o modelo principal do Stable Diffusion e, dessa forma, criem imagens que potencialmente respondam de maneira mais fiel às realidades e cosmovisões indígenas que desejam representar. Essa fase do projeto contou com a colaboração do coletivo britânico de artistas-tecnólogos Immersive Networks [Redes Imersivas] (Dave Lynch, Sam Hallas e Christophe de Bézenac) e consistiu em uma oficina presencial de cinco dias em Leeds para debater questões éticas, ambientais, epistemológicas e práticas relacionadas à proposta de desenvolvimento do protótipo. O debate sobre o protótipo também se beneficiou da elaboração de um ‘Manifesto pelo Bem Viver Digital’ no âmbito de um projeto paralelo denominado INDIGENIA, do qual participaram muitos dos mesmos colaboradores (Potiguara et al. 2024); além disso, o pesquisador indígena Alex Potiguara continuou realizando pesquisas de pós-doutorado sobre o tema do ‘Bem Viver Digital’ por meio da Digital Good Network [Rede Digital pelo Bem Comum] da Universidade de Sheffield.[7] Embora o protótipo estivesse pronto para uso em maio de 2024 e tenha sido testado, em particular, por aruma e Mariela, os problemas relacionados à segurança do acesso remoto continuaram a prejudicar o projeto durante todo o segundo semestre de 2024.

Houve muitas oportunidades para expor materiais do projeto. Thea organizou uma exposição temporária na Convention House de Leeds em 9 de março de 2024, como continuação da oficina de design. A exposição se concentrou principalmente no trabalho dos artistas além de sua participação no projeto da AIAI, embora tenham sido incluídas algumas das imagens geradas durante as primeiras fases do projeto da AIAI, juntamente com comentários sobre os objetivos de cada artista e uma análise dos resultados. Ela também organizou a apresentação do projeto no evento familiar ‘Be Curious’ [Seja Curioso], realizado na Universidade de Leeds em maio de 2024. Posteriormente, a aruma tomou a iniciativa de facilitar a inclusão do projeto na exposição coletiva ‘Ficções Generativas’, no Centro Cultural Gabriela Mistral, em Santiago do Chile, de 11 de junho a 13 de julho de 2024, além de representar o projeto em um episódio da série de televisão Utop-IAs, da Universidade do Chile, focado nos ‘Vieses e suas consequências’ (Pino Anguita, 2024), e Andreas se encarregou de incluir materiais da primeira fase do projeto em uma exposição realizada nos Jardins Botânicos Nacionais da Irlanda, em Dublin, de 10 a 17 de novembro de 2024.

Desde janeiro de 2025, continuamos trabalhando no treinamento dos membros da equipe para que utilizem o protótipo IndigenIA. Essa última fase envolveu uma estreita colaboração entre a Immersive Networks e Andreas, aruma, Haylly, Lucian, Mariela e Thea, com algumas contribuições organizacionais de Sebastián. Seria justo dizer que isso representou um enorme desafio devido a problemas técnicos (por exemplo, com o acesso remoto), à complexidade técnica da tarefa em si, à interface de usuário pouco intuitiva, à necessidade de trabalhar à distância e à exigência constante de traduzir as interações e localizar as interfaces em espanhol, português e inglês.

Enquanto isso, Sebastián dirigiu uma série de sete curtas-metragens e um documentário mais extenso (Gerlic 2025b e 2025a, respectivamente) como parte de seu projeto Inteligência Ancestral, que explora questões relacionadas à espiritualidade, à natureza, à arte, à tecnologia e ao ‘pertencimento ancestral’, e que retoma algumas das imagens do primeiro projeto AIAI, além de utilizar a ferramenta de IA generativa Runway para a animação. Mariela utilizou uma ampla gama de ferramentas de geração de imagens por meio de IA para ilustrar uma série de livros infantis que publicou e que são amplamente utilizados no sistema argentino de Educação Intercultural Bilíngue, e Nhenety também recorreu ao uso de ferramentas de geração de imagens por meio de IA (DALL-E 3) via ChatGPT para ilustrar as postagens de seu blog. Retornaremos a todos esses aspectos do projeto nas próximas seções do livro.

  1. O site do projeto está disponível em inglês, espanhol e português em https://aei.art.br/aiai/. ↑

  2. Embora a primeira pessoa a ter acesso às ferramentas de geração de imagens por meio de IA e a ter impulsionado o desenvolvimento de um projeto sobre esse tema tenha sido Tom, infelizmente ele abandonou o meio acadêmico antes que o projeto fosse colocado em prática e, desde então, não desempenhou um papel significativo em seu desenvolvimento. ↑

  3. Thea já havia estudado anteriormente os projetos Thydêwá Índios Online (Pitman, 2018) e Arte Eletrônica Indígena (Pitman, 2021). Andreas e Tom realizaram, em 2019, o projeto Sincronia Sonora, financiado pelo British Council e pela Fundação Oi Futuro, em parceria com Thydêwá e a comunidade Ymboré em Aldeia do Cachimbo, no sul da Bahia; consulte Gerlic (2019) para assistir a um breve documentário sobre o projeto. ↑

  4. aruma foi artista convidada para o projeto Arte Eletrônica Indígena e também colaborou no projeto AIRE, conforme mencionado no Capítulo 4. ↑

  5. A lista completa de participantes pode ser consultada em https://aei.art.br/aiai/en/team/. Os nomes aqui apresentados são aqueles com os quais as pessoas desejavam ser identificadas no contexto do projeto, atualizados para este livro nos casos em que as preferências tenham mudado. Alguns são nomes artísticos; outros são nomes indígenas, nos quais a origem étnica da pessoa é usada como ‘sobrenome’. ↑

  6. Para assistir a vídeos curtos baseados nas respostas das pessoas às imagens geradas, consulte Gerlic (2023–24b). ↑

  7. A lista completa dos colaboradores presentes no workshop de Leeds está disponível em https://aei.art.br/aiai/en/indigenia/. ↑

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